São João de Capistrano: A Força do Chamado Espiritual
Introdução – Quando a fé se torna missão Há pessoas que escutam o chamado divino como um sussurro.Outras, como São…
Revelando Tradições, Celebrando Raízes
Antes de existir o tambor, já existia o som.
Antes da palavra, o canto.
E antes do Brasil, já havia o axé.
A história e as origens do Candomblé começam muito antes da travessia do Atlântico — nas aldeias, nos reinos e nas florestas da África Ocidental, onde o povo já falava com o vento, dançava com a terra e reverenciava o orixá.
É uma história de fé, resistência e renascimento.
Cada terreiro no Brasil é um livro vivo: escrito com suor, memória e oração.
E cada toque de atabaque é uma página que o tempo se recusa a apagar.
Para compreender o Candomblé, é preciso olhar para a África e ver o quanto ela ainda vive em nós.
A religião nasceu das tradições iorubás, jeje e bantu — povos que, mesmo separados por mares e violências, trouxeram consigo um mesmo princípio: a vida é sagrada, e tudo o que existe tem axé.
Originário da região onde hoje estão Nigéria e Benim, o povo iorubá trouxe a base teológica e filosófica do Candomblé.
Foram eles que ensinaram o culto aos orixás, divindades que representam as forças da natureza e da vida humana.
De Ifé e Oyó veio o conhecimento de Ifá, o oráculo do destino; de Ijexá, a tradição dos cânticos e das danças; de Egba, a reverência aos antepassados.
Vindos de Angola e do Congo, os povos bantu trouxeram o culto aos inkices e a cosmovisão do equilíbrio entre vivos e mortos.
Suas práticas valorizaram a ancestralidade e a natureza, dando origem às casas de Candomblé de Angola e Congo, onde o tambor fala em outra língua, mas com o mesmo espírito.
Da região do antigo Daomé, o povo jeje trouxe o culto aos voduns, divindades de sabedoria profunda e ligação direta com a criação.
Foram eles que introduziram no Brasil a tradição de reverência ao tempo, à serpente Dan e ao equilíbrio cósmico.
Esses três troncos — iorubá, jeje e bantu — formam o que chamamos de tronco africano do Candomblé.
Três caminhos, uma só força.
Quando os africanos foram trazidos à força para o Brasil, trouxeram consigo seus deuses, suas línguas e seus ritos.
O cativeiro tentou apagar a fé, mas o axé resistiu.
Nas senzalas, nos quilombos e nas cozinhas, os cânticos continuaram.
Os orixás aprenderam a usar máscaras de santos católicos, e o tambor aprendeu a bater baixinho — mas nunca deixou de bater.
Nascia então o Candomblé como religião de resistência.
O sincretismo não foi submissão — foi estratégia.
Foi a inteligência espiritual de um povo que se recusou a morrer.
Os primeiros terreiros surgiram no século XIX, nas regiões de maior concentração da população africana escravizada — especialmente na Bahia e no Rio de Janeiro.
Localizado em Salvador, é considerado o mais antigo terreiro de Candomblé do Brasil.
Fundado por africanas libertas, tornou-se um dos principais pilares da tradição Ketu e referência até hoje.
Foi um dos primeiros templos urbanos do Candomblé baiano, símbolo da transição entre o culto doméstico e o culto público.
Da Barroquinha nasceram várias casas tradicionais, como o Ilê Axé Opô Afonjá e o Gantois.
Na região da Saúde e da Gamboa, o Rio de Janeiro viu nascer a chamada “Pequena África”.
Ali, figuras como Tia Ciata, João Alabá e Bamboxê Obitikô transformaram o samba, o culto e a história negra do Brasil.
O terreiro era lugar de reza e resistência, de tambor e política, de corpo e alma.
Durante séculos, os praticantes foram obrigados a esconder sua fé sob imagens católicas.
Xangô vestia-se de São Jerônimo; Oxóssi, de São Jorge; Iemanjá, de Nossa Senhora.
Essa fusão, que nasceu da dor, tornou-se uma das expressões mais ricas da espiritualidade brasileira.
Hoje, o sincretismo é reconhecido como memória de sobrevivência — a prova de que o sagrado se adapta, mas nunca se apaga.
O Candomblé é uma religião que reconhece a força feminina desde sua origem.
As Iyalorixás, ou mães de santo, foram — e continuam sendo — as grandes guardiãs da tradição.
De Tia Ciata, símbolo da cultura e resistência no Rio de Janeiro, a Mãe Aninha (do Ilê Axé Opô Afonjá) e Mãe Senhora (do Gantois), o legado dessas mulheres moldou o Candomblé como o conhecemos: organizado, respeitado e repleto de dignidade.
Elas ensinaram que fé também é liderança, e que o axé é tanto palavra quanto ação.
Com o fim da escravidão e a urbanização, o Candomblé deixou de ser apenas uma prática escondida para se tornar uma religião reconhecida, estudada e respeitada.
Mesmo assim, o preconceito persiste — agora disfarçado em ignorância.
Por isso, projetos como o Candomblé Desmistificado surgem como continuidade dessa luta: para ensinar, desmistificar e preservar.
Hoje, o Candomblé está em todos os estados do Brasil, presente também na diáspora africana das Américas e da Europa.
É religião, cultura, arte, música e filosofia.
É, sobretudo, memória viva da resistência afro-brasileira.
A história do Candomblé não termina — ela continua em cada toque de tambor, em cada folha colhida, em cada iniciado que acende uma vela para o orixá.
Entender suas origens é entender o Brasil.
E honrar essa história é o primeiro passo para respeitar o povo de axé.
“Enquanto houver tambor, haverá memória.
Enquanto houver memória, haverá axé.”
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